
Enquanto andei desaparecida aqui do blog, um dos livros que li foi “Em busca do carneiro selvagem” de Haruki Murakami e devo dizer que correspondeu totalmente às minhas expectativas.
A história é sobre um indivíduo (sem nome) absolutamente banal (e um pouco inadaptado à vida moderna) que por um acaso se vê envolvido numa perseguição a um carneiro que tem a capacidade de “possuir” humanos, com o objectivo de se apoderar do “mundo”. Nesta sua aventura, surgem diversas personagens únicas como a rapariga que seduz através das suas belas orelhas, ou o seu melhor amigo, uma personagem omnipresente e misteriosa de nome Rato.
Este é um livro surreal e fantástico. No entanto, com a sua escrita única, Murakami torna as cenas mais caricatas em acontecimentos com uma grande dose de realismo, talvez por apesar de as situações e da história corresponderem a situações irreais, os diálogos e os pensamentos das personagens aproximam-se muitas vezes dos nosso próprios pensamentos e diálogos em outras situações reais e penso que daí vem toda a magia do livro.
Murakami aproveita ainda para piscar o olho a vários assuntos bastante actuais como o poder dos media, o crescimento urbano descontrolado e caótico que aniquila os valores naturais e culturais das cidades e os conflitos geracionais (por exemplo entre o dono do hotel golfinho e o seu pai).
Aconselho pois a descoberta de Murakami.
Para terminar, deixo-vos com uma das minhas cenas preferidas do livro…
“Ao cair da noite, no momento em que me dirigia ao quarto do Rato para ir buscar outro livro, a minha atenção foi atraída pelo espelho de corpo inteiro que havia ao pé das escadas (…)
Ali estava eu, fielmente reflectido dos pés à cabeça. De pé, diante do espelho, fiquei a olhar para mim durante alguns momentos. Nada de especial que fosse digno de nota. Era mesmo eu com aquela minha expressão ambígua estampada no rosto. Contudo, o que ressaltava era a imagem, demasiado nítida. Faltava-lhe a típica monotonia bidimensional própria das imagens espelhadas. Em vez de ser eu a contemplar a minha imagem, no espelho, era a minha própria imagem unidimensional a contemplar o meu verdadeiro “eu”. Levantei a minha mão direita e limpei a boca com as costas da mão. O “eu” reflectido no espelho fez o mesmíssimo gesto. Ou, então, talvez tivesse sido eu a repetir o gesto do meu reflexo. Naquela altura, já não saberia dizer com toda a certeza se limpara de facto a boca com as costas da mão por minha livre e espontânea vontade.
Guardei a expressão “livre e espontânea vontade” na cabeça e, com o indicador e o polegar da minha mão esquerda, prendi o lóbulo da orelha. O “eu” do espelho fez o mesmo gesto. Pelos vistos, também ele guardara na cabeça a expressão “livre e espontânea vontade”.
Às tantas desisti e afastei-me do espelho. Ele fez o mesmo.”
in “Em busca do carneiro selvagem”, Haruki Murakami