Como gostava de ser borboleta…

“O Lago sem Nome” por Diane Wei Liang

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Terminei ontem “O Lago sem Nome” de Diane Wei Liang.

Esta é uma obra/documento sobre o massacre na Praça de Tiananmen em 1989 o qual a própria autora, Wei, viveu muito próximo.

A história inicia-se muitos anos antes, durante a infância de Wei num campo de trabalho forçado, para onde os seus pais foram enviados durante a revolução cultural chinesa. Nesta parte fica-se com uma impressão bastante clara deste período negro da história da China em que os intelectuais eram forçados a trabalhar no campo, impedidos de exercerem a sua profissão ou prosseguirem os seus estudos, sofrendo inúmeras humilhações. Apesar das dificuldades, Wei consegue entrar na Universidade de Beijing como uma aluna brilhante terminando os seus estudos em 1989.

No entanto, este é um ano de muitas mudanças, e ideias revolucionarias de liberdade e democracia começam a formar-se nas mentes dos jovens estudantes universitários. Surgem então diversas iniciativas e manifestações pacíficas às quais se juntam progressivamente outros cidadãos de vários sectores da sociedade. O movimento dos jovens estudantes começa a tomar proporções tais que o governo central se sente ameaçado. Como resposta definitiva do partido, é decretado para o dia 4 de Junho o desimpedimento total da praça de Tiananmen (o quartel general das forças revolucionarias) a qualquer custo, o que significa o massacre de milhares de jovens.
Wei, que participa em várias manifestações e actividades revolucionárias, no dia em que ocorre o massacre, encontra-se em casa a descansar da vigília na noite anterior na praça de Tiananmen, salvando-se de um final trágico.

Apesar do tema não ser fácil, é um livro que se lê bem, o romance entre a autora e um colega da faculdade faz aliviar a tensão dos acontecimentos políticos e esta é uma boa forma de ficar a conhecer um pouco mais sobre a historia e costumes da china do século XX. O facto da escritora também não ter exactamente participado no massacre, baseando as suas descrições nos relatos dos colegas e nas marcas deixadas na cidade, também contribui para que as imagens não sejam tão pesadas como seria de esperar, embora continuem a ser incomodativas, principalmente pelo facto de esta ser uma historia verídica e de o regime que a fez acontecer encontrar-se ainda no poder, governando um pais onde democracia e liberdade de expressão são ainda palavras proibidas.

O final do livro é na minha opinião demasiado abreviado. Gostaria muito que a autora se tivesse prolongado na descrição dos seus primeiros tempos na América, país para onde fugiu depois dos acontecimentos de 1989.

De qualquer maneira, este é um livro que aconselho bastante.

Esperança

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Esperança

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

Almada Negreiros

Bom ano!

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Os melhores livros de 2008

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Fazendo um balanço ao ano que passou, aqui ficam (por ordem de preferência) os livros que li em 2008:

1. “A Estrada” de Cormac McCarthy

2. “A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón

3. “Estação de Carandiru” de Drauzio Varella

4. “Em busca do Carneiro Selvagem” de Haruki Murakami

5. “O Amor nos tempos de Cólera ” de Gabriel Garcia Marquez

6. “A Sala das Perguntas” de Fernando Campos

7. “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar” de Luis Sepúlveda

8. “O Retrato de Dorian Grey” de Oscar Wilde

9. “Anjos e Demónios” de Dan Brown

10. “Os Piratas” de Gilles Lapouge

Devo dizer que este ano, excepto para “Os Piratas” de Gilles Lapouge, adorei cada um dos livros da lista, ou seja, apesar de este ano ter lido um pouco menos que nos anos anteriores (muito provavelmente porque não tive férias de verão), ganhei em termos da qualidade dos livros, o que não foi nada mau :)

“Em busca do carneiro selvagem” por Haruki Murakami

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Enquanto andei desaparecida aqui do blog, um dos livros que li foi “Em busca do carneiro selvagem” de Haruki Murakami e devo dizer que correspondeu totalmente às minhas expectativas.

A história é sobre um indivíduo (sem nome) absolutamente banal (e um pouco inadaptado à vida moderna) que por um acaso se vê envolvido numa perseguição a um carneiro que tem a capacidade de “possuir” humanos, com o objectivo de se apoderar do “mundo”. Nesta sua aventura, surgem diversas personagens únicas como a rapariga que seduz através das suas belas orelhas, ou o seu melhor amigo, uma personagem omnipresente e misteriosa de nome Rato.

Este é um livro surreal e fantástico. No entanto, com a sua escrita única, Murakami torna as cenas mais caricatas em acontecimentos com uma grande dose de realismo, talvez por apesar de as situações e da história corresponderem a situações irreais, os diálogos e os pensamentos das personagens aproximam-se muitas vezes dos nosso próprios pensamentos e diálogos em outras situações reais e penso que daí vem toda a magia do livro.

Murakami aproveita ainda para piscar o olho a vários assuntos bastante actuais como o poder dos media, o crescimento urbano descontrolado e caótico que aniquila os valores naturais e culturais das cidades e os conflitos geracionais (por exemplo entre o dono do hotel golfinho e o seu pai).

Aconselho pois a descoberta de Murakami.

Para terminar, deixo-vos com uma das minhas cenas preferidas do livro…

“Ao cair da noite, no momento em que me dirigia ao quarto do Rato para ir buscar outro livro, a minha atenção foi atraída pelo espelho de corpo inteiro que havia ao pé das escadas (…)

Ali estava eu, fielmente reflectido dos pés à cabeça. De pé, diante do espelho, fiquei a olhar para mim durante alguns momentos. Nada de especial que fosse digno de nota. Era mesmo eu com aquela minha expressão ambígua estampada no rosto. Contudo, o que ressaltava era a imagem, demasiado nítida. Faltava-lhe a típica monotonia bidimensional própria das imagens espelhadas. Em vez de ser eu a contemplar a minha imagem, no espelho, era a minha própria imagem unidimensional a contemplar o meu verdadeiro “eu”. Levantei a minha mão direita e limpei a boca com as costas da mão. O “eu” reflectido no espelho fez o mesmíssimo gesto. Ou, então, talvez tivesse sido eu a repetir o gesto do meu reflexo. Naquela altura, já não saberia dizer com toda a certeza se limpara de facto a boca com as costas da mão por minha livre e espontânea vontade.

Guardei a expressão “livre e espontânea vontade” na cabeça e, com o indicador e o polegar da minha mão esquerda, prendi o lóbulo da orelha. O “eu” do espelho fez o mesmo gesto. Pelos vistos, também ele guardara na cabeça a expressão “livre e espontânea vontade”.

Às tantas desisti e afastei-me do espelho. Ele fez o mesmo.”

in “Em busca do carneiro selvagem”, Haruki Murakami

E o mundo não pára…

Enquanto andei mergulhada na minha never ending tese, o mundo literário não parou de girar. A saber:

- O escritor indiano Aravind Adiga ganhou o Man Booker Prize com o livro “The White Tiger” (que mal posso esperar pela publicação em Portugal).

“A estrutura narrativa de The White Tiger não podia ser mais simples: um “empresário” espertalhão e sem escrúpulos, chamado Balram Halwai, escreve sete longas cartas ao primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, a poucos dias da sua visita oficial à Índia. Convicto de que os «amarelos» e os «castanhos» vão dominar em breve o mundo, pelo menos no plano económico, ele quer explicar a Jiabao as razões do sucesso dos «empreendedores» indianos, partindo da sua exemplar história de self made man. Exemplar é como quem diz. Halwai sobe a pulso na escala social, de motorista a dono de uma empresa de transportes (ao serviço dos grandes call centers de Bangalore), mas essa ascensão é feita à custa de todo o tipo de atropelos éticos, crimes e gestos amorais.
Nascido no coração da Índia, junto às margens negras do Ganges (negras por causa das cinzas que sobram das piras funerárias), Halwai cumpre o sonho que é negado a milhões de outros miseráveis como ele: sair da Escuridão («Darkness») – onde os búfalos trabalham nos campos, as pessoas morrem de tuberculose em hospitais sem médicos e os caciques fazem o que querem – a caminho da Luz representada pelas cidades modernas, a abarrotar de centros comerciais e empresas informáticas de ponta, cujas acções são negociadas na Bolsa de Nova Iorque.
São estas duas Índias, com os seus contrastes chocantes e os seus pontos de contacto (a corrupção, por exemplo, que surge em todos os níveis da sociedade), são estas imagens extremas de um país contraditório que Adiga explora com uma inteligência e uma subtileza raras, fazendo do seu livro uma parábola, ao mesmo tempo divertida e violenta, sobre o lado mais sombrio do milagre económico indiano.”

In Bibliotecário de Babel

- O francês Jean-Marie Gustave Le Clézio recebeu o Nobel da Literatura.

“Nascido a 13 de Abril de 1940 em Nice, no Sul de França, Jean-Marie Gustave Le Clézio é um dos nomes cimeiros da literatura francesa contemporânea. Detentor de um estilo clássico e refinado, assinou um vasto catálogo de mais de 50 romances, contos, ensaios, novelas e mesmo traduções de mitologia ameríndia.
A obra de Le Clézio evoca as viagens e os contactos com diferentes culturas, sobretudo da América Latina e de África.
Espiritual, a literatura do escritor de Nice privilegia os temas do paraíso perdido e a crítica ao materialismo do Ocidente.
“O ponto central da obra do escritor desloca-se cada vez mais na direcção de uma exploração do mundo da infância e da própria história familiar”, sublinha a Academia Sueca.
Le Clézio é formado em Letras e trabalhou na Universidade de Bristol, em Londres. Aos 23 anos foi distinguido em França com o Prémio Renaudot pelo ensaio “Le procès-verbal”.
Em 1967, após uma experiência de ensino nos Estados Unidos, partiu para a Tailândia em serviço militar. Acabaria por ser expulso depois de denunciar a prostituição infantil, rumando então ao México.
Entre 1970 e 1974, Le Clézio viveu junto de índios do Panamá. Durante os anos de 1970, trabalhou no Instituto da América Latina. (…) A obra-prima “Deserto”, “O Processo de Adão Pollo, “O Caçador de Tesouros”, “Estrela Errante”, “Diego e Frida” e “Índio Branco” são os títulos do Nobel da Literatura com tradução para Português.”

In RTP

Para quem leu “A Estrada” de Cormac…

Uma entrevista que me deixou muito deprimida…

Military analyst warns of coming `climate wars` unless global warming is reversed
Source: Environmental News Network
Published Sep. 1, 2008

The prospect of global wars driven by climate change is not something often discussed publicly by our political leaders.

But according to one of America’s top military analysts, governments in the US and UK are already being briefed by their own military strategists about how to prepare for a world of mass famine, floods of refugees and even nuclear conflicts over resources.

Gwynne Dyer is a military analyst and author who served in three navies and has held academic posts at the Royal Military College at Sandhurst and at Oxford.

Speaking about his latest book, Climate Wars, he says there is a sense of suppressed panic from the scientists and military leaders. ‘Mostly it’s about winners and losers, at least in the early phases of climate change,’ he said.

‘If you’re talking about 1 degree, 2 degrees hotter – not runaway stuff – but what we’re almost certainly committed to over the next 30 or 40 years, there will be countries that get away relatively cost free in that scenario, particularly countries in the higher latitudes.’

But he says that closer to the equator in the relatively arid zone – where Australia is situated – there will be very serious droughts.

‘[There will be] huge falls in the amount of crops that you can grow because there isn’t the rain and it’s too hot,’ he said. ‘That will apply particularly to the Mediterranean… and so not just the north African countries, but also the ones on the northern side of the Mediterranean. ‘The ones in the European Union like Spain and Italy and Greece and the Balkans and Turkey are going to be suffering huge losses in their ability to support their populations. Climate refugees He says a fall in crops and food production means there will be refugees, people who are desperate. ‘It may mean the collapse in the global trade of food because while some countries still have enough, there is still a global food shortage,’ he said. ‘If you can’t buy food internationally and you can’t raise enough at home, what do you do? You move.

So refugee pressures – huge ones – are one of the things that drives these security considerations.’ In Climate Wars, even the most hopeful scenarios about the impact of climate change have hundreds of millions of people dying of starvation, mass displacement of people and conflict between countries competing for basic resources like water. ‘India and Pakistan are both nuclear-armed countries. All of the agriculture in Pakistan and all of the agriculture in northern India depend on glacier-fed rivers that come off the Himalayas from the Tibetan plateau. Those glaciers are melting,’ Dr Dyer said.

‘They’re melting according to Chinese scientists to 7 per cent a year, which means they’re half gone in 10 years. ‘India has a problem with this. Pakistan faces an absolutely lethal emergency because Pakistan is basically a desert with a braid of rivers running through it. ‘Those rivers all start with one exception in Indian-controlled territory and there’s a complex series of deals between the two countries about who gets to take so much water out of the river. Those deals break down when there’s not that much water in the rivers.’ And then you have got the prospect of a nuclear confrontation, Dr Dyer says.

‘It’s unthinkable but yet it’s entirely possible. So these are the prices you start to pay if you get this wrong,’ he said. ‘Some of them, actually, I’m afraid we’ve already got them wrong in the sense that there is going to be some major climate change.’ Dr Dyer explains the least alarmist scenario for the next couple of decades still involves enormous pressures on the US border. ‘That border’s going to be militarised. I think there’s almost no question about it because the alternative is an inundation of the United States by what will be, effectively, climate refugees,’ he said. ‘They [US] are concerned actually about losing a lot of land and a lot of crop production within the United States itself. ‘A lot of Florida’s basically about six inches above sea level – and the Mississippi River Delta, well we’ve already seen what one hurricane did there – plus of course many interventions overseas by the American armed forces as much bigger emergencies occur in much bigger parts of the world.’ Worst-case scenario

But the real insight into the US study is that the more severe climate change scenario is the one that analysts think is the more likely one. ‘And it’s not just the analysts. I spent the past year doing a very high-speed self-education job on climate change but I think I probably talked to most of the senior people in the field in a dozen countries,’ Dr Dyer said.

‘They’re scared, they’re really frightened. Things are moving far faster than their models predicted. ‘You may have the Arctic ocean free of ice entirely in five years’ time, in the late summer. Nobody thought that would happen until about the 2040s – even a couple of years ago.’ Dr Dyer says there is a sense of things moving much faster, and the military are picking up on that. He also says we will be playing climate change catch-up in the next 30 years. ‘The threshold you don’t want to cross, ever, is 2 degrees Celsius hotter than it was at the beginning of the 1990s,’ he said.

‘That is a margin we have effectively already used up more than half of. It would require pretty miraculous cooperation globally and huge cuts in emissions.’ And if the world does not decarbonise by 2050, you don’t want to be there, according to Dr Dyer. ‘My kids will and I don’t think that is going to be a pleasant prospect at all, because once you go past 2 degrees – and you could get past 2 degrees by the 2040s without too much effort – things start getting out of control,’ he said. ‘The ocean starts giving back to the atmosphere the carbon dioxide it absorbed.

That world is a world where crop failures are normal. ‘Where, for example, Australia does not export food any more, it is hanging on to what it can still grow to feed its own people but that is about all that it is going to be able to do, and many countries can’t even do that.’ He says China will take an enormous blow. ‘There is a study out from the Chinese Academy of Scientists and then swiftly disappeared again, but about two years ago, we predicted the maximum damage that would be done to China under foreseeable climate change in the 21st century was 38 per cent cut in food production,’ he said. ‘That is only about three-fifths of the food they now eat and there will be a lot more of them. ‘I think we will end up having to do things that at the moment nobody would consider doing like geo-engineering, ways of keeping the temperature down while we get our emissions down.’

- Adapted from an interview first aired on The World Today, August 25.

in Environmental Expert

“Lost weekend” por Rui Pires Cabral

Lost weekend

Um dia é maior do que a soma
das suas horas
, às vezes comporta
todos os invernos e as estações assombradas
pelos prejuízos do prazer.

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós
, crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.

Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,
é a própria razão que nos ilumina os atalhos
para o esquecimento
. Um ano inteiro não será suficiente
para tudo o que não nos acontece.

Agora sim um poema de Rui Pires de Cabral… Este poema tem a particularidade de ter três frases que acho simplesmente geniais e que (embora por outras palavras) já me atravessaram mais do que uma um vez o pensamento (ou o espirito), são essas as frases marcadas em itálico. Espero que o apreciem tanto como eu.

Quino

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