“O Processo” por Kafka

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Terminei hoje “O Processo” de Kafka. A primeira coisa que tenho a dizer sobre este livro é que este é susceptível a diversas interpretações, e tenho a certeza que muita coisa me passou ao lado durante a leitura…

De qualquer maneira, enquanto o lia, lembrei-me curiosamente várias vezes das demonstrações matemáticas por redução ao absurdo, o que acho que cola na perfeição com esta obra, embora numa perspectiva diferente. Kafka pretende no fundo demonstrar a forma como a realidade se nos apresenta por redução ao absurdo das situações mais inimagináveis, vividas por um homem, Joseph K., gerente de um banco, a quem é instaurado um processo sem qualquer razão aparente levando K. da aparente indiferença até ao mais completo desespero, através dos mecanismos tortuosos de um tribunal que funciona em sótãos velhos e que parece estar em toda a parte e mantendo toda a gente sobre controlo.
Acho que o mais notável é o autor construir as situações mais surrealistas e no meio introduzir parágrafos com os quais conseguimos encontrar tantas semelhanças com a realidade, com um sem fim número de episódios da nossa vida, como por exemplo:

“ (…) A única atitude sensata era uma pessoa adaptar-se às condições existentes. Mesmo que fosse possível melhorar um pormenor aqui ou ali – e era simples loucura pensar nisso -, qualquer vantagem resultante dessa alteração só no futuro beneficiaria os clientes, enquanto os próprios interesses de quem a tivesse feito seriam imensamente prejudicados por atraírem a atenção dos sempre vingativos funcionários. Tudo menos isso! Uma pessoa deve conservar-se calma, ainda que isso choque com a sua maneira de ser, e tentar compreender que esta grande organização se mantém, por assim dizer, inalterável e que, se alguém se dispuser a modificar a disposição das coisas que giram à sua volta, corre o risco de perder o pé e cair na destruição, enquanto a organização simplesmente se corrigiria por meio de uma reacção compensadora noutro sitio do seu mecanismo – desde que tudo se encontra ligado – e continua imutável, a não ser que, na realidade, o que é muito provável, se torne ainda mais rígida, mais vigilante, mais severa e mais implacável. (…) ”
Qualquer semelhança entre isto e o funcionalismo público não parece pura coincidência…

“ (…) O dossier completo circulara de acordo com as exigências rotineiras, seguindo para o Supremo tribunal, deste novamente para os tribunais inferiores e andando para trás e para diante, sujeito às maiores ou menores oscilações, aos maiores ou menores atrasos. Estas viagens são imprevisíveis. Alguém que estivesse de fora a observar o facto imaginaria que todo o processo teria sido esquecido, os documentos perdidos, e que a absolvição estaria completa (…) Um dia – inesperadamente -, um dos juízes pegará nos documentos e estudá-los-á com toda a atenção, reconhecendo que neste processo a acusação ainda é válida, pelo que mandará uma ordem de captura imediata. (…) ”
Lembremo-nos por exemplo do mediático caso “Camarate”

Podemos ainda encontrar diversas referências ao voyerismo, à corrupção, ao fanatismo religioso, entre muitos outros.

Devo dizer que este autor sempre me suscitou alguma curiosidade e que tinha bastantes expectativas na leitura da sua obra mas na verdade, acabei por ficar um pouco desiludida. Acho a sua escrita demasiado fria e crua. Não há uma única personagem com a qual consigamos sentir empatia e toda a história é como uma espiral de desespero e loucura. Acho que há maneiras muito mais interessantes e “simpáticas” de nos levar a reflectir sobre a nossa condição humana e sobre os mecanismos que regem a sociedade…

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2 comentários

  1. Abril 5, 2007 às 1:20 am

    Olá, queria dar-te os parabéns pelo teu blog, e já agora convidar-te a visitar o meu: É a história de um músico. que decide partir pela Europa em busca de Fama e Fortuna. (www.demonislandtour.wordpress.com). Um verdadeiro filme!

    Ainda chega a Espanha mas apaixona-se, fica sem dinheiro e tem de de voltar para trás. depois arranja um emprego numa empresa de cafés, onde está neste momento a tentar ganhar o suficiente para se fazer de novo à estrada.

    Em paralelo também se conta a história do órfãozinho Fritz Kahn, que decide partir em busca da sua mãe, com a sua fiel companheira Snarky (uma cadelinha preta). Cai dentro de um poço e é salvo por um pássaro Mitológico chamado Debicronije, que salva os órfãos em apuros mas que lhes pede sempre o que eles têm de mais importante. No caso do Fritz foram os laços mágicos de amizade que o uniam à Snarky. A debicronije transforma o Fritz num porquinho com asas, que foge da terra de Nonamor (A terra da debicronije, onde o feio é o bonito). A caminho de casa, ajudado por uma andorinha que o levava em direcção à Primavera é caçado pelos monges do templo Nandi, que utilizam porquinhos com asas nas suas corridas de toiros.

    Enfim. É uma longa história, mas divertida. faz-me uma visita em http://www.demonislandtour.wordpress.com

  2. diego said,

    Setembro 5, 2008 às 7:19 pm

    oi!
    De acordo com o texto, gostaria de saber a função simbólica do crime e a ausência da segurança jurídica!

    espura sua resposta no meu e-mail

    obrigado!


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