“Ode a Nossa Senhora do Homem” por Hugo Santos

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Pois é, no passado dia 22 de Junho fiz aninhos (até tinha umas coisas catitas para assinalar aqui a data, mas acabei por ficar sem tempo para isso…) e o meu namorado ofereceu-me o livro de poesia “Ode a Nossa Senhora do Homem” de Hugo Santos, autografado pelo próprio 😀

Obviamente que já o li de uma ponta à outra, e não podia deixar de fazer um post com a minha opinião.

Primeiro tenho de explicar a história à roda deste escritor. Eu não fazia a ideia da sua existência, alias, para ser sincera, eu não tenho tido muito boas experiências com os escritores portugueses mais actuais, pelo que acabei por me tornar um pouco preconceituosa (eu sei que injustamente) em relação a estes. Quando comecei a namorar com o Miguel e ele descobriu a minha paixão pelos livros, disse-me que tinha um amigo escritor e começou a emprestar-me os livros de Hugo Santos e foi óptimo…
De inicio devo dizer que não achei muita piada, mas à medida que fui lendo fui gostando cada vez mais e mais e agora é definitivamente um dos meus escritores preferidos.
Sobre a sua escrita, Hugo Santos é actualmente um professor primário reformado que nasceu no Alentejo, e penso que estes dois aspectos da sua vida estão bastante presentes nos seus livros, pelo menos naqueles que li até agora. Este é um escritor polivalente que publica romances, poesia e diários sendo que independentemente da forma, o conteúdo segue sempre aspectos comuns. Hugo Santos é um escritor do sentir, tanto dos cinco sentidos exteriores, como dos sentidos interiores. È o escritor das coisas simples, das nostalgias, da saudade, das utopias, da procura, por vezes da desilusão, principalmente uma desilusão em relação aos valores anunciados após o 25 de Abril e que acabaram corrompidos e invertidos.
As suas personagens despertam em nós um imenso sentimento de empatia e, no meu caso particular, fazem-me sentir de certo modo ligada a elas, aliás, não são só as suas personagens, é toda a sua obra, a força das palavras, a influencia do passado, as nossas relações com aqueles que faleceram, a busca do “Velo d’Ouro” numa montanha que nunca é a última (e que desejamos no fundo que nunca o seja), a nossa fragilidade perante a vida, o aceitar das utopias mas também dos erros que cometemos pelo caminho… Por todas estas razoes, aprecio verdadeiramente a escrita de Hugo Santos.

Durante muito tempo o meu namorado chateou-me para eu o conhecer, mas eu tinha algum receio, porque a ideia que tinha dele era tão boa que não queria estragá-la com a realidade de alguém pretensioso ou a atirar para o arrogante, e tinha também algum medo de fazer figura de parva… Finalmente tive de o conhecer, de uma maneira muito estranha, depois de uma enorme discussão “conjugal”, acabei sem dar conta enfiada na casa do escritor o que resultou, aliviou a tensão entre mim e o Miguel e tive ainda o bónus de conhecer alguém que superou as minhas expectativas, afinal Hugo Santos revelou-se uma pessoa extremamente simpática, muito simples e agradável de conversar, sendo tudo o que fazia transparecer nos seus livros… Até tive direito à oferta de um livro autografado no final da visita :p

Bem, voltando ao livro sobre o qual é o post, a “Ode a Nossa Senhora do Homem” é, como o próprio nome indica, uma ode dedicada à mulher (Senhora) amante, amiga e companheira, a quem o escritor aclama mas também a quem pede protecção e orientação para as dificuldades da existência, sendo no fundo apenas uma forma de criar um poema fabuloso, cheio daquelas máximas que dá vontade de sublinhar, e transcrever vezes sem conta… Um exemplo?! Aqui fica, mas só um cheirinho, porque o livro merece ser comprado e saboreado por inteiro…:

“(…)Ah, Senhora, faz-me crer que a verdade
tem tantos rostos quantos os das dúvidas
que a enformam.
De que serve uma certeza
se não me usar refutá-la?(…)”

Importuna Razão, não me persigas

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Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;

Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo.

Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.

Por Bocage
Imagem por Fernando Santos

Mutts

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Carpe diem

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Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? “Não”, dizes, “nada me obrigará
à renúncia de mim próprio — nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!”
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Nuno Júdice

Segunda, terceira e quarta ídas à feira do livro …

Resultado, perdi a cabeça e ultrapassei largamente o orçamento que tinha estipulado, coisa que me irrita profundamente, consigo ser extremamente poupada em tudo, menos no que toca a livros e concertos, os meus calcanhares de Aquiles… O que vale é que a partir de hoje terminou…

Mas foram todos boas compras, dois como livro do dia e o terceiro, com desconto do livro do dia mesmo não o sendo (mais uma vez graças aos meus poderes de negociação :p )

Comprei “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde da editora Relógio D’Água ; “O Antropólogo Inocente” de Nigel Barley, o qual descobri no blog sismógrafo, cuja descrição me fez ficar com vontade de o comprar e ainda o “1001 livros para ler antes de morrer”, não propriamente para seguir à letra mas pelas ilustrações e informações extras sobre os livros da lista, como já aqui antes referi num post. Da lista já li 22 livros e tenho cá em casa outros 7, o que pelo menos mostra que as minhas preferências literárias não se conjugam assim tanto com a lista, não deixando esta de ter entradas bastante interessantes, sendo outras um pouco mais discutíveis…

De qualquer maneira, acho que o ponto alto da feira foi a oportunidade de ter o livro “Meia-Noite ou O Princípio do Mundo” autografado pelo próprio Richard Zimler, definitivamente um dos meus escritores preferidos, que ao vivo tem a mesma simplicidade e simpatia que revela nas entrevistas que já tinha visto na TV.
Foi excelente conhecer alguém que admiro pela sua escrita, alias, acho sempre estranho conhecer escritores de que gosto particularmente, é que o acto de escrever é, na minha opinião, algo de muito pessoal, e olhar para alguém e pensar em todas as coisas fantásticas que partiram daquela mente e depois descobrir que essas pessoas são no fundo tão simples e autênticas, chega a ser desconcertante…

Alem deste autografo, ainda consegui o de José Rodrigues dos Santos, uma surpresa para os meus pais :p Curioso foi a fila para autógrafos deste autor ser substancialmente maior do que para qualquer outro, incluindo o nosso premio Nobel Saramago… enfim, mais uma vez o poder da televisão…

Paragens…

Começa a época de exames, a juntar a um certo sentimento de apatia e cansaço em relação a tudo o resto. Resultado, aquilo que não queria, falta de inspiração e vontade de escrever no blog…

Não estou a dizer que vou deixar de o fazer, simplesmente os posts vão começar a serem um pouco mais espaçados uns entre os outros, embora com muita pena minha, pois gostava que pudesse ser sempre como no inicio, um post todos os dias… enfim, daqui a um mês pode ser que volte a ser mais regular… entretanto, obrigada pelas visitas 🙂

O Sentimento dum Ocidental

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I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

II

Noite Fechada

Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de dom!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.

III

Ao gás

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua trai^ne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

>
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

III

Horas mortas

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!…
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

Cesário Verde

Imagem por Carlos Botelho