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VERSOS ÍNTIMOS

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Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Por Augusto dos Anjos
Imagem por Goya

Estrelas cadentes – Zits

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”Antropólogo Inocente” por Nigel Barley

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Já acabei há uns tempos o “Antropólogo Inocente” de Nigel Barley, mas só agora sobrou um bocadinho de tempo para escrever sobre ele.

Gostei bastante, dado que sou uma viciada em livros sobre viagens, este foi uma abordagem diferente uma vez que retrata a viagem particular de Nigel Barley, um jovem antropólogo, que sente o “chamamento do trabalho de campo” e embarca numa aventura caótica em Africa em busca de uma tribo remota, os Dowayos.

De inicio nada corre bem, ao que parece, a anarquia que rege o universo africano confunde, baralha e faz desesperar Nigel, que depois de resmas de impressos e algumas carimbadas encontra finalmente a sua tribo.
Embora o ponto de vista seja o de um antropólogo, a linguagem utilizada não é técnica nem maçadora, pelo contrário, é descontraída e carregada de sarcasmo misturado com algum humor negro, e no final até conseguimos ficar com algumas noções sobre o assunto (digo eu que não percebo grande coisa de ciências humanas…).

Notei alguma diferença na maneira como as tribos indígenas são abordadas literariamente. Normalmente são vistos como mera curiosidade, um conjunto de seres excêntricos, acabando o narrador, ainda que indirecta e sem intenção, por se distanciar culturalmente deles. No fundo, o que eu quero dizer é que em certos livros os povos autóctones acabam por ser vistos como meras curiosidades, tornando difícil para o leitor visualizar esses seres humanos à nossa semelhança, com regras sociais que não são nem mais nem menos acertadas do que as nossas, simplesmente encontram-se inseridas num contexto absolutamente diferente. Ora é exactamente este último ponto que, na minha opinião, Nigel consegue transmitir, e penso que terá sido este o factor que mais me agradou no livro (isso e ter me feito soltar algumas boas gargalhadas…).

Aconselho pois a sua leitura, mesmo para quem, à minha semelhança, seja um leigo em antropologia e que pretenda de uma forma divertida, ficar a saber um pouco mais sobre os sabores e dissabores que envolvem esta profissão…