“Há cidades cor de pérola onde as mulheres” por Herberto Helder

poema-herberto-helder.jpg

V

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime – espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: – E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

in Herberto Helder
Lugar
Poesia Toda
Assírio & Alvim
1979

imagem por American Modernist School,
“Woman Surrounded by Buildings”,
c.1932, “J”

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4 comentários

  1. CSD said,

    Janeiro 13, 2008 às 7:30 pm

    Olá Tânia!

    Ainda não conmsegui “A Confissão de Lúcio”!

    🙂

    Mas as minhas leituras prossegum…

    Iniciei hoje Guilhermo Cabrera Infante. Na 6ª feira passada apresentei “O Perfume” no Cineliterário em Famalicão; Süskind, a causar sempre polémica…

    Um beijinho

    CSD

    P.S: Adorei este poema.

  2. Janeiro 15, 2008 às 4:14 pm

    Uma beleza de poema!

    Saudações de Washington D.C., Moura Aveirense

  3. tanialucas said,

    Janeiro 19, 2008 às 9:48 pm

    Para CSD

    Ainda não tive a oportunidade de ler “O Perfume”. Apesar de já mo terem aconselhado varias vezes, acho sempre tão macabra a ideia de um assassínio que mata pela obsessão pelo cheiro… De qualquer maneira qualquer dia vai ter de ser, pelas óptimas criticas que tenho lido reconheço ser uma grande falta não o ter. Fico com pena de Lisboa ser tão longe de Famalicão, gostaria de ter assistido à apresentação 🙂

    Cumprimentos e boas leituras!

    Tânia Lucas

  4. tanialucas said,

    Janeiro 19, 2008 às 9:59 pm

    Para Moura Aveirense

    Devo dizer que invejo profundamente as suas viagens que acompanho à distância pelo blog 🙂

    É de facto um poema fantástico. De certa maneira faz-me sentir orgulhosa de ser mulher…

    Cumprimentos e boas leituras!

    Tânia Lucas


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