“Estação de Carandiru” por Drauzio Varella

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Terminei há uns dias “Estação de Carandiru” de Drauzio Varella. Devo dizer que de inicio não dei grande coisa pelo livro, as experiências de um médico brasileiro que exerce a sua profissão naquela que foi uma das maiores prisões da América Latina e que culmina com um dos maiores massacres de que há memória, parecia-me um tema demasiado pesado para o meu gosto… A verdade é que não podia estar mais enganada, este livro deixou-me de tal maneira “agarrada” que tornou-se impossível parar de ler.

Para ficarem com uma ideia, deixo aqui o resumo que vem no interior da capa: “A Casa de Detenção de São Paulo, no bairro do Carandiru, foi a maior prisão do Brasil e da América Latina. Em 1989, quando o médico Drauzio Varella ali começou um trabalho voluntário de prevenção à Sida, abrigava mais de 7200 presos. A sua lotação era de 4000. O presídio foi palco de incontáveis histórias de vida, cenário de um brutal massacre em 1992 e epicentro do maior protesto alguma vez ocorrido em cadeias brasileiras, quando 29 prisões de levantaram simultaneamente em Fevereiro de 2001. Exemplo de sistema penitenciário antiquado e desumano, a prisão foi desactivada e três dos seus pavilhões implodidos em Dezembro de 2002. O relato de Drauzio Varella, que serviu de base ao filme ‘Carandiru’, de Hector Babenco, regista a sua experiência pessoal e o contacto próximo que travou com os detidos. Ao longo de mais de uma década de convívio com estes e com o pessoal da prisão, Drauzio organizou palestras, gravou vídeos, atendeu presos doentes e editou a revista O Vira Lata.”

Esta obra lê-se como se estivéssemos numa conversa de café, de uma forma bastante fluida, e o facto de estar escrito em brasileiro, embora de inicio tivesse achado idiota, acabou por ser fundamental, tornando todos os momentos muito mais realistas e vividos. Penso que uma tradução para português iria arruinar uma boa parte do livro.
Basicamente este é constituído por duas partes, uma primeira em que o médico nos fala do funcionamento da prisão, das várias áreas e pavilhões e principalmente das regras não escritas que regem a vida dos presos, e uma segunda parte onde Drauzio nos conta histórias de presos que pelo seu carisma, aventuras e desventuras ou papel desempenhado na prisão, acabaram por merecer um especial destaque. Pelo meio há inúmeras referências à experiência da luta do autor contra a epidemia de Sida neste local, desde os seus medos, dúvidas, dificuldades até aos momentos em que de repente todos os sacrifícios valiam a pena.

Acho que a maneira mais fácil de descrever este livro é chamar-lhe um livro emocional. Ao longo da sua leitura ri, chorei e tremi, numa alternância de emoções como penso que nunca antes um livro me havia feito sentir. Praticamente todas as histórias são intercaladas com um excelente sentido de humor, que torna muito mais leve a leitura, mesmo de cenas que contadas de outra forma certamente nos chocariam. No entanto houve dois momentos no livro em que me senti verdadeiramente incomodada, o primeiro foi num capítulo onde é descrito o processo de injecção de cocaína pelos presos, quando cheguei ao fim do capítulo estava verdadeiramente mal-disposta, com o estômago todo embrulhado e pensei seriamente em desistir do livro, o segundo foi mesmo no final, quando acontece o massacre, nessa noite, tive pesadelos com as cenas do livro. Mas também houve capítulos que me fizeram dar verdadeiras gargalhadas, como aquele dedicado a Veronique, a Japonesa, um travesti que se metia em situações verdadeiramente mirabolantes e sem dúvida hilariantes. Outros fizeram-me sentir extremamente emocionada (sim, com lágrimas nos olhos), como quando Drauzio Varella reencontra em liberdade um dos presos mais antigos e queridos da prisão.

Resumido, adorei o livro, contra todas as expectativas, e aconselho-o vivamente!

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3 comentários

  1. Rodrigo Zoom said,

    Março 10, 2008 às 6:54 pm

    Olá,
    Achei esta página por acaso, e não foi por menos que percebi o quanto você gosta e sabe escrever bem e sua paixão por livros.
    Percebi também que você é de Portugal, e não do Brasil, estou certo ?
    Faço quadrinhos, todos os dias um novo ! Pretendo um dia publicar um livro com os melhores, assim que alguma editora se interessar e quem sabe editar em portugal !
    Entre na minha página e veja alguns dos meus trabalhos

  2. tanialucas said,

    Março 18, 2008 às 10:54 pm

    Obrigada pelo comment.

    Sou portuguesa sim e grande fã desde pequena dos “quadradinhos” brasileiros da turma da Mónica 🙂

    Passei pelo site e gostei muito das tiras, boa sorte com a publicação de um livro porque realmente eles merecem dar o salto da web para o papel :p

  3. cvguj said,

    Setembro 9, 2008 às 3:58 am

    vai te fudeR@@!!


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