“Fico na terra” por Eugénio de Andrade

Todos os anos penso em deixar este poema no dia dos meus anos aqui no blog e todos os anos não tenho tempo para isso…

Fica então (com um delay desde dia 22 de Junho) este poema que tanto me intrigou, porque apesar de Eugénio de Andrade não ter nascido a 22 de Junho e não perceber qual a sua ligação com esta data a verdade é que o poema faz todo sentido para mim, palavrinha por palavrinha…

Fico na terra

Fico na terra toda,
natural e sadio,
-como água liberta
no sulco dum rio.

Mãos fincadas no chão;
boca larga, distendida
num rio que desconhece
sentidos falsos da vida.

Fico estendido ao sol,
inteiro e consciente
que passei a ser terra
e deixei de ser gente.

Hoje, vinte e dois de Junho,
alguma coisa nasceu
neste pedaço de terra
que sou eu.

Eugénio de Andrade

A imagem, como não poderia deixar de ser, é da minha pintora preferida, Georgia O’Keeffe, quadros que me fazem sempre sentir como se estivesse a ver o espelho do meu interior…

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Feira do Livro de Lisboa 2008

Este foi um fim de semana em cheio, finalmente consegui ir à feira-do-livro, ainda por cima dois dias seguidos 😀

No primeiro dia, a indecisão entre o Orlando Furioso na Cavalo de Ferro e o Dom Quixote na Relógio d’Água ia fazendo-me sair da feira de mãos a abanar… Safou-me estarem (na Casa das letras se não me engano) três livros do Chuck Palahniuk a 5€ cada, comprei o Asfixia e o Lullaby, um para oferecer ao namorado da minha irmã e outro para ela própria. Para quem não sabe, Chuck Palahniuk escreveu o livro que deu origem ao filme Fight Club, um filme que à partida não dava nada por ele e depois de o ver fiquei completamente viciada. Palahniuk é um génio, dotado de um sarcasmo mordaz e acutilante e de um humor negro, muito negro, ao qual é impossível não reagir. O seu único defeito é que toda a sua genialidade é orientada para o lado negro da vida, levada por anti-heróis, que vivem à margem da sociedade ou à custa desta, sub-produtos de um mundo decadente, levando por vezes esta decadência aos extremos, ao ponto de aquando da leitura do seu ultimo (e também mais polémico) livro em publico, várias pessoas tiveram de sair da sala verdadeiramente incomodadas (pelo menos fui o que li algures). De qualquer maneira, e aparte tudo isto, aconselho vivamente que se atrevam a lê-lo porque vale realmente a pena.

O segundo dia foi mais rentável para o meu lado. Começou logo com um autografo do autor Fernando Campos, de quem estou a ler “A sala das perguntas” e estou a adorar, um verdadeiro Umberto Eco à portuguesa, embora não no sentido negativo da imitação barata, mas na perspectiva do romance histórico, que transpira cultura e conhecimento, e que simplesmente nos deixa fascinados… Voltando ao autografo, gostaria de ter ficado um pouco a falar com o escritor (apesar da sua avançada idade) no entanto haviam mais pessoas na fila e alem disso voltou a acontecer aquele meu problemazito de bloquear mentalmente sempre que falo com um escritor…

Depois disto passei pelo stand da Fenda, onde estavam também representadas mais duas pequenas editoras, a 90º e outra de que não me recordo o nome. Fiquei um pouco à conversa com a editora da 90º, uma espanhola muito simpática que se decidiu aventurar no mercado editorial português, juntamente com uma amiga francesa, e com uma óptima ideia na manga, publicar livros de literatura mas relacionados com pintura, cinema ou outras formas de arte… acabei por comprar “O meu irmão – Theo e Vincent Van Gogh”, de Judith Perrignon, um livro baseada nas cartas trocadas entre estes dois irmãos, afectados pela loucura e bastante inter-dependentes.

Passei também pela Antígona e na caixa das promoções, acabei por me render a “Os Piratas” de Gilles Lapouge (livro que já me tinha chamado a atenção noutra feira do livro por sentir alguma curiosidade sobre o tema) e ainda “México Insurrecto”, um livro que abri ao acaso e gostei do que li, o relato de um jornalista que acompanhou na própria pele a revolução mexicana, no inicio do século XX.

Terminei as minhas compras na “Casa das letras”, onde comprei “Em busca do Carneiro Selvagem” de Haruki Murakami, um escritor muito popular no momento e de quem ainda não li nada. Escolhi este titulo apenas por ser o mais barato, assim se me arrepender o estrago não é assim tão grande :p

Agora quanto à feira no geral, lá estavam os pavilhões modernos da polémica Leya que na minha opinião descaracterizam completamente a feira, aproximando-se de um qualquer stand pré-formatado de uma fil ou qualquer outra feira, muito longe dos velhinhos pavilhões do Parque Eduardo VII, onde se compram livros como vegetais ou flores numa feira… No entanto os pequenos editores também têm as suas estratégias de marketing, a Casa das Letras, por exemplo, oferecia pipocas pelos livros comprados … também achei boa ideia realizar a transmissão em ecrã gigante do jogo de Portugal no Parque, nesse dia a feira encheu e talvez publico que não estaria habituado a participar neste evento tenha mesmo comprado alguns livros… Outra coisa que achei de um encanto sublime foi ter visto uma professora com meia de dúzia de alunos de uma escola certamente de algum bairro degradado da capital, em visita de estudo à feira, achei tão inspirador e tão à “Mentes Perigosas” (o filme)… fiquei curiosa em saber se de entre aqueles alunos rebeldes, algum ficou com o bichinho dos livros depois desse dia…

Quanto a mim só me resta esperar mais um ano, para poder voltar àquele espaço tão especial, onde me sinto sempre tão bem…

“Do sentimento trágico da vida” por Natália Correia

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
é parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

Natália Correia