“Fico na terra” por Eugénio de Andrade

Todos os anos penso em deixar este poema no dia dos meus anos aqui no blog e todos os anos não tenho tempo para isso…

Fica então (com um delay desde dia 22 de Junho) este poema que tanto me intrigou, porque apesar de Eugénio de Andrade não ter nascido a 22 de Junho e não perceber qual a sua ligação com esta data a verdade é que o poema faz todo sentido para mim, palavrinha por palavrinha…

Fico na terra

Fico na terra toda,
natural e sadio,
-como água liberta
no sulco dum rio.

Mãos fincadas no chão;
boca larga, distendida
num rio que desconhece
sentidos falsos da vida.

Fico estendido ao sol,
inteiro e consciente
que passei a ser terra
e deixei de ser gente.

Hoje, vinte e dois de Junho,
alguma coisa nasceu
neste pedaço de terra
que sou eu.

Eugénio de Andrade

A imagem, como não poderia deixar de ser, é da minha pintora preferida, Georgia O’Keeffe, quadros que me fazem sempre sentir como se estivesse a ver o espelho do meu interior…

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6 comentários

  1. Pedro said,

    Junho 26, 2008 às 3:02 pm

    Lindo. Adorei o poema, natural e real. Não ligo muito a Eugénio de Andrade, mas gostei deste poema.

    A imagem é super curiosa, não conhecia a pintora…

  2. Joana Pinto said,

    Julho 2, 2008 às 10:18 am

    Eu, pelo contrário, aprecio, e muito, Eugénio de Andrade pela sua terna e bela poesia! Ele faz ligações perfeitas entre os diversos elementos da Natureza e os que complementam cada um de nós, enquanto seres humanos.
    O telurismo nem sempre o acompanha, mas aqui é este que estabelece a ponte entre a mãe ( palavra e imagem prementes na sua obra) natureza e o Homem. Pode ser o telurismo o ponto de partida para quem quiser ver neste poema uma perfeita metáfora do nascimento do ser humano, saído de um ventre materno, imageticamente pintado como mais diversos pontos da natureza: água, terra, etc.
    Mais interpretações poderão ser feitas, pois a poesia de Eugénio dá-nos uma liberdade natural para isso mesmo…

  3. Ceres said,

    Julho 5, 2008 às 4:18 pm

    Olá 🙂 Cheguei até aqui através de outro blog e gostei muito do que escreves 🙂

    Hei-de voltar 🙂

  4. tanialucas said,

    Julho 21, 2008 às 8:57 pm

    Para Pedro:

    Aconselho vivamente a descoberta de Georgia O’keeffe, a pintora dos contrastes, do deserto e da cidade, da vida (nas suas flores) e da morte (nos seus ossos), mas acima de tudo uma pintora que transmite muito o conceito de feminilidade (não sendo isto razão para os homens não apreciarem o seu trabalho :p)

    O site oficial do museu é : http://www.okeeffemuseum.org/home.aspx

    Boas férias
    Tânia Lucas

  5. tanialucas said,

    Julho 21, 2008 às 9:01 pm

    Para Joana Pinto:

    Que bela interpretação deste poema aqui nos deixa…

    Tal como a Joana, também aprecio muito a poesia deste autor, ora fresca e natural, ora melancolica e introspectiva, mas como diz, sempre dada a inumeras interpretações…

    Boas férias
    Tânia Lucas

  6. tanialucas said,

    Julho 21, 2008 às 9:01 pm

    Para Ceres:

    Obrigada pela visita!

    Boas férias
    Tânia Lucas


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