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“A MOSCA DO SERVIÇO DE URGÊNCIA” por A. M. Pires Cabral

A MOSCA DO SERVIÇO DE URGÊNCIA

A velha está sentada na sala de espera.
Chegou amparada pela filha, que a depositou ali
enquanto trata dos papéis. A aflição
deve ter sido tão súbita e imperiosa
que a velha vem descomposta,
não houve tempo para atender a pudores.
Perdeu algures um chinelo.

Está sentada, muito branca, e parece
mascar as dores com as gengivas nuas.

Tem a morte pousada na cara, sob a forma
de uma mosca insistente e de ar atarefado.
Não tem forças para a sacudir.
A mosca aproxima-se da boca, depois parece
interessar-se pelo nariz. Delicia-se
com o muco ao canto do olho, como a criança
que come a ocultas um gelado interdito.
É como se estivesse em casa e percorresse
os aposentos ao sabor dos afazeres.
Cansada do rosto, levanta voo
e vai pousar, desta feita, numa mão.
Mas breve volta atrás, como se se tivesse
esquecido ali de alguma coisa,
e demora-se um pouco a tentar lembrar o quê.

Esfrega uma na outra as patas dianteiras,
celebrando a vitória que logo virá.

A velha já nem se dá conta
desse penúltimo escárnio da morte.
Está visivelmente madura para ela,
pronta a entregar-lhe os destroços do corpo.

Consumada a posse daquele território,
a mosca vai no seu voo fortuito
em busca de mais carne a requerer.
Há dezenas de doentes na sala.
Apalpa-os um por um, como se faz aos figos,
para saber qual deve ser comido
em primeiro lugar.

O mais certo é que acabe – mais dia, menos dia –
por devorá-los todos.

[Por A. M. Pires Cabral in As Têmporas da Cinza, Cotovia]

“A Sombra do Vento” por Carlos Ruiz Zafón

Acabei há pouco “A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón, uma obra absolutamente fantástica…

Daniel Sempere, um jovem sem mãe, nascido na época após o fim da Guerra Civil espanhola, mora com o seu pai, um alfarrabista, na cidade de Barcelona.
Um dia, o pai leva-o ao cemitério dos livros esquecidos, um armazém, guardado por um velhote com cara de diabrete que encerra no seu interior todos aqueles livros que o mundo esqueceu. Daniel tem ainda a oportunidade de escolher um livro, um qualquer, por ser esta a sua primeira visita a este lugar. O Jovem escolhe “A Sombra do Vento” de Julian Carax, um livro que o deixa fascinado desde o primeiro momento e pelo qual começa a nutrir uma verdadeira obsessão. Procura então outras obras deste autor e descobre que não existem pois uma personagem misteriosa dedica-se a queimar todos os exemplares escritos por Julian Carax. Aguçado pela intriga Sempere procura desvendar a história sobre este autor misterioso, que embora nascido em Barcelona morava em Paris, ganhando a vida como pianista num bordel.

Devo dizer que este livro tem tudo o que uma boa história deve ter: um mistério por desvendar, romances temporalmente dispares mas historicamente paralelos, personagens carismáticas e pelas quais é impossível não nos apaixonarmos, uma (ou duas) femme fatale e algumas tiradas geniais, vindas da boca de um sem-abrigo desavergonhado e inteligente, tudo isto passado numa cidade maravilhosa como é Barcelona, em ambientes entre o gótico e o noir… Com o bónus de toda a trama se desenrolar em torno do poder dos livros…

O final é perfeito e a explicação de todas as situações extremamente coerente. Um livro que me deixou agarrada desde o primeiro paragrafo (que é o mínimo que se pode dizer de um livro em que, sensivelmente a meio, se pode ler da boca da personagem principal, “Mal eu sabia que daí a uma semana estaria morto”)

Devo dizer que fiquei aos pulos quando li não-sei-onde que este era apenas um de vários livros do mesmo autor tendo como pano de fundo Barcelona.

Repetindo o que já escrevi no post-anterior (e ainda bem que assim é) considero este um livro que ninguém deve deixar de ler.

Mutts

Eugénio de Andrade

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

por Eugénio de Andrade
Imagem: “O Grito” de Edvard Munch

“A Estrada” de Cormac McCarthy

Acabei à dias “A Estrada” de Cormac McCarthy, o famoso autor de obras como «Este País Não é Para Velhos», que deu origem ao filme, e ainda vencedor de um prémio Pulitzer. Possui ainda uma personalidade especial que o faz negar qualquer tentativa de entrevista excepto a única que deu à Oprah.

A acção narrativa decorre num tempo depois do tempo, um mundo após um apocalipse nuclear (nunca referido directamente mas subentendido), mergulhado num eterno Inverno de cinza e escuridão. É este mundo que percorremos, na companhia de um pai e de um filho, uma anónima estrada na Americana em busca do Sul onde residem as ultimas esperanças de um local menos agreste.

Vivem perdidos no medo, na fome e na solidão. Já não existem animais nem plantas e os últimos humanos, transformaram-se na sua maioria em canibais atrozes que caçam outros humanos. Num cenário onde o desespero e a morte imperam, estas duas almas sobrevivem um pelo outro, fazendo-nos perceber a fragilidade do nosso mundo, a futilidade das nossas necessidades e desejos modernos e o poder incondicional do amor, que tornam este homem e criança sobreviventes num mundo moribundo.

Devo dizer que este foi um dos melhores (se não o melhor) livros que li até hoje. Cada vez que parava a sua leitura, olhava à minha volta e a tomada de consciência da instabilidade e fraqueza do mundo que nos rodeia e do que temos por adquirido era verdadeiramente avassaladora. Este é definitivamente uma obra que nos faz pensar e repensar a realidade, as nossas vidas e prioridades. Um livro capaz de nos virar do avesso…

Apesar da violência de algumas passagens, penso que ninguém deveria deixar de o ler.

“Os Piratas” de Gilles Lapouge

Terminei “Os Piratas” de Gilles Lapouge. Devo dizer que fiquei um pouco desiludida. Quando comprei o livro, fi-lo no intuito de ter uma obra que me permitisse conhecer um pouco sobre a historia e costumes destes homens que de uma forma ou outra sempre estiveram presentes na nossa historia, e ainda poder ler sobre a biografia das principais piratas e corsários. Afinal, o livro será talvez mais indicado para aqueles que já conhecem um pouco da historia da pirataria, sendo este mais um ensaio sobre este fenómeno sociológico do que propriamente uma obra informativa. Lapouge vai-nos apresentando as contra-regras pelas quais se regem estes párias da sociedade, como manipulam a historia e as sociedades, mantendo-se à margem destas mas vivendo à sua custa. De como nas suas aventuras podemos ver um regresso à infância ou a busca de um paraíso perdido na terra. Tentar compreender o seu carácter anarquista e revolucionário, que no entanto se afasta imensamente dos outros movimentos reaccionários da história. Observar a sua maneira de enfrentar a morte, uma vez que olham o seu frio rosto todos os dias e vivem com o fantasma da forca sobre as suas cabeças, ou ainda a imagem do ouro/tesouro, que assume um papel bastante distinto daqueles que lhe damos na nossa sociedade, entre muitos outros aspectos.

Este livro faz-nos questionar um pouco os moldes sociais pelos quais nos guiamos e obriga-nos a olhar para a pirataria, nas suas diversas vertentes, por prismas alternativos, embora ache que o autor por vezes exagera na sua defesa da pirataria, uma vez que muitas das acções levadas a cabo por estes homens simplesmente não poderão ser justificadas.

Um ponto a favor desta obra consiste no facto de estar ilustrada com figuras diversas, todas relacionadas com a pirataria.

Este é um livro que aconselho talvez mais àqueles que tenham algum interesse em movimentos anarquistas ou revolucionários, ou que se interessem pelo tema, não sendo, na minha opinião, particularmente relevante para todos os outros…

“A Sala das Perguntas” de Fernado Campos

Terminei à tempos a “Sala das perguntas” de Fernando Campos. Devo dizer que gostei bastante. Embora catalogavel como romance histórico, adiciona uma pontinha de mistério e deixa no ar a questão sobre a paternidade de uma grande figura nacional.

Esta obra centra-se na vida de Damião de Góis, após a descoberta do seu diário secreto (escrito na sua maioria durante o seu cárcere promovido pela inquisição) escondido no seu túmulo, por dois investigadores do século passado.

Para quem não se recorda, Damião de Góis foi o maior humanista português, tendo viajado por toda a Europa e privando com figuras importantes da época como o famoso Erasmos de Roderdão, Martinho Lutero, entre outros…

Depois, regressado a Portugal, vê-se deparado com a inveja e cobiça dos seus pares, a devastação da peste que lhe rouba a esposa e por fim a humilhação da inquisição.

Para ser sincera, antes de iniciar a obra, não sabia ao certo quem seria esta ilustre figura, mas no final senti-me completamente ignorante por deixar passar uma personagem tão fabulosa da nossa historia…

Quanto à escrita, Fernando Campos apresenta-nos uma obra relativamente fácil (embora não se aproximando sequer de obras de qualidade inferior), com um estilo muito semelhante a Umberto Eco (como já por aqui havia referido), com retratos vividos e coloridos da sociedade europeia da época, principalmente nas diferenças de costumes entre os países da Europa central, do norte e mediterrânica. O único ponto que tenho a apontar é o facto de as personagens serem demasiado “perfeitas”, fazendo-as parecer por vezes pouco reais…

Fora isso, esta é uma obra que aconselho vivamente.