Esperança

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Esperança

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

Almada Negreiros

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Bom ano!

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Os melhores livros de 2008

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Fazendo um balanço ao ano que passou, aqui ficam (por ordem de preferência) os livros que li em 2008:

1. “A Estrada” de Cormac McCarthy

2. “A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón

3. “Estação de Carandiru” de Drauzio Varella

4. “Em busca do Carneiro Selvagem” de Haruki Murakami

5. “O Amor nos tempos de Cólera ” de Gabriel Garcia Marquez

6. “A Sala das Perguntas” de Fernando Campos

7. “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar” de Luis Sepúlveda

8. “O Retrato de Dorian Grey” de Oscar Wilde

9. “Anjos e Demónios” de Dan Brown

10. “Os Piratas” de Gilles Lapouge

Devo dizer que este ano, excepto para “Os Piratas” de Gilles Lapouge, adorei cada um dos livros da lista, ou seja, apesar de este ano ter lido um pouco menos que nos anos anteriores (muito provavelmente porque não tive férias de verão), ganhei em termos da qualidade dos livros, o que não foi nada mau 🙂

“Em busca do carneiro selvagem” por Haruki Murakami

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Enquanto andei desaparecida aqui do blog, um dos livros que li foi “Em busca do carneiro selvagem” de Haruki Murakami e devo dizer que correspondeu totalmente às minhas expectativas.

A história é sobre um indivíduo (sem nome) absolutamente banal (e um pouco inadaptado à vida moderna) que por um acaso se vê envolvido numa perseguição a um carneiro que tem a capacidade de “possuir” humanos, com o objectivo de se apoderar do “mundo”. Nesta sua aventura, surgem diversas personagens únicas como a rapariga que seduz através das suas belas orelhas, ou o seu melhor amigo, uma personagem omnipresente e misteriosa de nome Rato.

Este é um livro surreal e fantástico. No entanto, com a sua escrita única, Murakami torna as cenas mais caricatas em acontecimentos com uma grande dose de realismo, talvez por apesar de as situações e da história corresponderem a situações irreais, os diálogos e os pensamentos das personagens aproximam-se muitas vezes dos nosso próprios pensamentos e diálogos em outras situações reais e penso que daí vem toda a magia do livro.

Murakami aproveita ainda para piscar o olho a vários assuntos bastante actuais como o poder dos media, o crescimento urbano descontrolado e caótico que aniquila os valores naturais e culturais das cidades e os conflitos geracionais (por exemplo entre o dono do hotel golfinho e o seu pai).

Aconselho pois a descoberta de Murakami.

Para terminar, deixo-vos com uma das minhas cenas preferidas do livro…

“Ao cair da noite, no momento em que me dirigia ao quarto do Rato para ir buscar outro livro, a minha atenção foi atraída pelo espelho de corpo inteiro que havia ao pé das escadas (…)

Ali estava eu, fielmente reflectido dos pés à cabeça. De pé, diante do espelho, fiquei a olhar para mim durante alguns momentos. Nada de especial que fosse digno de nota. Era mesmo eu com aquela minha expressão ambígua estampada no rosto. Contudo, o que ressaltava era a imagem, demasiado nítida. Faltava-lhe a típica monotonia bidimensional própria das imagens espelhadas. Em vez de ser eu a contemplar a minha imagem, no espelho, era a minha própria imagem unidimensional a contemplar o meu verdadeiro “eu”. Levantei a minha mão direita e limpei a boca com as costas da mão. O “eu” reflectido no espelho fez o mesmíssimo gesto. Ou, então, talvez tivesse sido eu a repetir o gesto do meu reflexo. Naquela altura, já não saberia dizer com toda a certeza se limpara de facto a boca com as costas da mão por minha livre e espontânea vontade.

Guardei a expressão “livre e espontânea vontade” na cabeça e, com o indicador e o polegar da minha mão esquerda, prendi o lóbulo da orelha. O “eu” do espelho fez o mesmo gesto. Pelos vistos, também ele guardara na cabeça a expressão “livre e espontânea vontade”.

Às tantas desisti e afastei-me do espelho. Ele fez o mesmo.”

in “Em busca do carneiro selvagem”, Haruki Murakami