Jesusalém, por Mia Couto

kNeste momento, se eu tivesse de escolher o vencedor do próximo prémio Nobel, seria indiscutivelmente Mia Couto. Nenhum autor consegue como Mia Couto transmitir os paradoxos da condição humana, situando a acção no mais belo dos continentes, África  onde a magia habita todos os seres e paisagens.

O livro que acabei de ler foi Jesusalém, a história dos despojos de uma família, um pai, dois filhos e um servente, que se refugiam numa antiga coutada de caça em Moçambique, em fuga da cidade e de um passado demasiado presente.

E como vos hei-de falar de Jesusalém?… essa terra de ninguém, habitada por fantasmas, uns mortos outros vivos, onde Vitalicio reina à espera que o próprio Deus desça para lhe pedir perdão pela sua vida. E no meio de toda esta alucinação, as semelhanças com a realidade, com os nossos medos, com os nossos desejos, com a nossa vida, são tantas e tão poderosas que nos fazem realmente abanar e prender a uma narrativa perfeita, onde as palavras ganham outros sentidos e nos fazem questionar de que lado do espelho vivemos.

Porque só lendo se percebe o que é difícil de explicar, deixo-vos aqui algumas das minhas passagens preferidas, esperando abrir-vos o apetite para um autor que merece realmente ser lido.

“- A única coisa que te posso ensinar, a si e ao Ntunzi , é não falhar no tiro. A felicidade é uma questão de pontaria.”

“A vida só sucede quando deixamos de a entender. Nos últimos tempos, meu querido Mwanito, estou longe de qualquer entendimento. Nunca me imaginei viajando para África. Agora não sei como regressar à Europa. Quero voltar para Lisboa, sim, mas sem memória de alguma vez já ter vivido. Não me apetece reconhecer nem gente, nem lugares, nem sequer a língua que nos dá acesso aos outros. É por isso que me dei tão bem em Jesusalém: tudo era estranho e não prestava contas sobre quem era, nem que destino devia escolher. Em Jesusalém, a minha alma se tornava leve, desossada, irmã das graças.”

“- Essa pupila está cheia de noite.”

“Era feitiço sim. Mas não lançado por meu pai. Era o pior dos maus-olhados: aquele que lançamos sobre nós próprios.”

“- Saudade é esperar que a farinha se refaça em grão.”

Um pequeno aparte, achei a capa do livro extremamente bem escolhida. A Caminho está realmente a melhorar neste sentido…

Advertisements

1 Comentário

  1. hugo said,

    Agosto 24, 2014 às 2:23 pm

    onde posso arranjar o livro em formato eletronico


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: