A lura dos livros

“O Cisne Negro” por Nassim Taleb

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Ao contrário do livro anterior, “O Cisne Negro” de Nassim Taleb em vez de me tirar o sono, revelou-se um excelente indutor de sono :p

E pronto, realmente estou a ser injusta porque este é um livro referência para diversos intelectuais da actualidade e que de facto me fez pensar sobre várias coisas que damos como adquiridas na nossa sociedade.

E again, como é que me chegou às mãos? Aqui há tempos assisti a uma palestra muito interessante dada pelo investigador Nuno Gaspar de Oliveira num seminário da APEA sobre Green Economy, onde o orador referiu por diversas vezes o fenómeno Cisne Negro. Gostei do conceito e fiquei curiosa. Por coincidência uns dias depois encontrei o próprio livro na Ler Devagar por metade do preço e claro, não pude deixar passar a oportunidade 😉

E o que é afinal um Cisne Negro para além de uma ave estranha? Um Cisne Negro é também o nome dado a eventos que possuem as seguintes características:

“Primeiro: é “atípico”, encontra-se fora das nossas expectativas normais, porque nada que tenha ocorrido no passado pode apontar, de forma credível, para esta possibilidade. Segundo: reveste-se de um enorme impacto. Terceiro: apesar do seu caracter desgarrado, a natureza humana faz com que construamos explicações para a sua ocorrência depois de o facto ter lugar, tornando-o compreensível e previsível.” (Nassim Taleb)

O exemplo mais recente de um Cisne Negro foi o 11 de Setembro, com impacto em todo o mundo e que ninguém poderia prever (apesar de todas as polémicas pós-explicações…).

Basicamente este livro alerta-nos para a imprevisibilidade do futuro e do perigo das previsões económicas, sociais e outras, em que a nossa falta de noção de ignorância pode ter o efeito perverso de nos torna ainda mais susceptíveis ao efeito dos Cisnes Negros.

São também analisados casos em que os nossos conhecimentos teóricos contradizem as nossas atitudes praticas e do perigo da utilização indiscriminado da curva em forma de sino para a explicação de fenómenos sociológicos. Um dos exemplos mais utilizado pelo autor é o do peru, que pode fazer previsões de uma boa vida com base nos dados do passado no entanto, sem que o possa esperar, no dia 24 de Dezembro, a sua vida irá terminar abruptamente, algo que o peru em si não poderia prever, mas com um impacto definitivo. “Confundir uma observação ingénua do passado como algo definitivo ou representativo do futuro é a única e exclusiva razão para a nossa incapacidade de compreender o Cisne Negro” (Nassim Taleb)

As ideias deste livro são tão revolucionárias e tão profundamente ilustradas com exemplos que a certa altura tive de me render e passei a ler com um lápis na mão para sublinhar todas as passagens que considerava fundamentais.

A única critica que tenho a fazer é a forma tão intransigente como que o autor defende as suas teorias – desconfio sempre de teorias apresentadas como o Santo Graal. Nem sempre concordei com o autor, mas este teve o prodígio de me fazer pensar e questionar vários factos, abrindo-me os olhos para causas ocultas da crise actual que vivemos… Penso que também às vezes dispersa um pouco… sendo definitivamente a parte mais importante do livro a quarta e última. A terceira parte é um pouco técnica, o autor avisa, mas mesmo assim arrisquei e não tive grandes problemas de compreensão, no entanto, quem ler o livro pode saltá-la sem qualquer problema.

Por isso, aviso à navegação, se quiserem fazer um brilharete e deitar abaixo 90% das conversas pseudo-intelectuais em que se possam ver envolvidos, leiam este livro 😉

P.S.: Também resulta para casos graves de insónias! Lol

Em jeito de en core, aqui ficam momentos brilhantes do livro, que merecem ser divulgados:

“Para se ser executivo não é necessário possuir lobos frontais muito desenvolvidos, mas uma combinação de carisma, capacidade de conter o tédio e capacidade de manter um desempenho superficial sob o peso de uma agenda violenta”

“Serendipidade (…) encontra-se algo que não se procurava e que muda o mundo, e interrogamo-nos, após a sua descoberta, por que razão ‘se demorou tanto tempo’ a chegar a algo tão óbvio”

“Prova Silenciosa – um certo Diágoras, não crente nos deuses, foi confrontado com umas tábuas de pedra onde haviam sido pintados os retratos de um grupo de adoradores que rezaram e sobreviveram a um naufrágio. O que estava subentendido neste gesto era que as orações protegem os homens do afogamento. Diágoras perguntou:’ Onde estão os retratos dos homens que rezaram e se afogaram’”

“Qualquer pessoa que prejudique alguém com as suas previsões deveria ser tratado ou como um irresponsável ou como mentiroso. Alguns destes analistas são mais nocivos para a sociedade do que os criminosos. Por favor, não conduza um autocarro escolar com os olhos vendados”

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