DIFEL Fechou

Sábado à noite fui à Feira do Livro, este ano mais cedo do que o habitual.

Primeiro não gostei da data… Estava demasiado frio para a Feira do Livro que sempre lembra agradáveis noites de Verão. Depois, os novos stands dos grandes grupos editoriais, a descaracterizar o ambiente tão típico de “mercado” de livros, fazendo lembrar um qualquer expositor da FIL que poderia ser de um artigo qualquer (o da Babel então era deveras assustador…). Por fim, numa necessidade desesperada de aquecer a alma procurei pelo stand da DIFEL. Procurei, procurei… Pedi indicações na Antígona onde simpaticamente me indicaram o stand da apel e eis que se revela: a DIFEL fechou. Puf. Já não existe. E o meu pequeno coraçãozinho partiu-se e o chão fugiu debaixo dos meus pés…

Passo a explicar. A DIFEL tinha um catálogo absolutamente perfeito. Revia-me praticamente em todas as obras. Foi na DIFEL que mergulhei nas “Brumas de Avalon”, viajei pelas fantasias de Isabel Allende, deslumbrei-me com Richard Zimler e vibrei com Umberto Eco. Todas as obras escolhidas partilhavam encantamento, fantasia, história e cultura. Eram livros inteligentes e cativantes, escolhidos a dedo. Esteticamente, os livros caracterizavam-se por folhas, que ainda novas, já apresentavam um tom amarelado, como se encerrassem já em si anos e anos de histórias, o tamanho de letra era perfeito: pequeno, como eu prefiro, mas não demasiado, ao ponto de me magoar os olhos. Das capas saliento a mais bonita que vi até hoje: a de “Meia-noite ou o Principio do Mundo” de Richard Zimler…

Então e agora? O que vai acontecer? Sei que Richard Zimler já era publicado por outra editora, e disseram-me que Umberto Eco também foi engolido por um dos gigantes, mas, e o resto???? Colleen McCullough, Fernando Campos, Sue Townsend… Para os estrangeiros, será que só os poderei ler em inglês??? E Amin Maalouf que tinha planeado como “escritor descoberta” para este ano???

Estou deprimida…

P.S.: A Fenda também já não aparece no site da Feira, por isso cheira-me que também fechou… Sobra a Antígona, Assírio & Alvim, Relógio D’água, Tinta da China… Mas por quanto tempo? E o mais enervante é que nem dá para sabotar compras nos Grandes Grupos Editoriais, afinal, entre livros embrulhados em tule e outras pirosices, a verdade é que existem Putzier’s e Prémios Nobel…

*suspiro*

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“Homens que Matam Cabras só com o Olhar “ de JON RONSON

A minha irmã tem o dom de me oferecer os livros mais improváveis, dos quais desconfio sempre, mas que no fim me deixam sempre profundamente agradecida.

Desta vez calhou-me este “Homens que matam cabras com o olhar”, com um título que curiosamente, é para ser levado à letra. Este livro é na realidade um trabalho de investigação de um jornalista sobre um ramo do exercito Norte Americano que acreditava na utilização de armas psíquicas/esotéricas para intervenções militares.

Desta forma tomamos conhecimento, numa abordagem muito “teoria da conspiração”, sobre o financiamento por parte do governo dos EUA de actividades que parecem ter sido retiradas de uma feira de aberrações ao bom estilo americano, algumas das quais com consequências terríveis.

E é inacreditável pensar que tudo isto possa ser verdade, que temos o nosso destino nas mãos de indivíduos completamente alucinados, apoiados pelas mais eminentes forças internacionais. Faz-nos questionar a verdade por de trás de episódios que todos ouvimos na televisão, como o 11 de Setembro, a Guerra no Iraque, a prisão de Guantanamo ou os suicídios em massa nos EUA.

Este é um livro que se lê muito bem (até para quem não gosta de ler) e que nos deixa realmente a pensar sobre o mundo em que vivemos.

Sei que esta obra foi adaptada ao cinema, no entanto, não vi o filme.

De uma forma ou de outra, aconselho!

“Comer, Orar, Amar” de Elizabeth Gilbert

Muito antes do filme, este livro apareceu em casa dos meus pais. Na altura achei que devia ser mais um livro lamechas de auto ajuda no entanto, com todo o aparato à volta do filme, decidi pôr os meus preconceitos de lado e perceber porquê este blockbuster literário.

De inicio odiei o livro, as cenas do divorcio, a autora/narradora/personagem principal que não parava de se lamentar… mas depois percebi o sucesso. Férias de um ano totalmente pagas, com direito a uma estadia em Itália com o único objectivo de ingerir as melhores iguarias do mundo, uns meses na Índia num retiro espiritual na busca do verdadeiro eu e uma escapadela paradisíaca no Bali com direito a uma história de amor digna de um conto de fadas, é o sonho de qualquer ser humano à face da terra. Acho que esta é a razão do sucesso do livro, fazer-nos sonhar e acreditar que ainda há milagres (que curiosamente acontecem sempre aos outros…). De qualquer forma, este foi um livro que não me arrependo de ter lido, nem sempre temos de gostar de calhamaços densos e obscuros, por vezes é bom ler apenas coisas que nos fazem passar um bom bocado.

Num aparte, duas coisas ficaram-me da história:
1) Pratico yoga mas, tal como a autora, aldrabo sempre a parte da meditação. Fiquei mesmo a pensar se aquela história de atingir um estado superior capaz de mudar a nossa vida através deste método será mesmo verdade…
2) Nunca cheguei a ver o filme no cinema, mas a cena em que a autora personifica a solidão e a depressão foi mesmo muito engraçada na minha imaginação por isso tenho uma curiosidade imensa em ver como foi tratada no cinema (é possível que tenha simplesmente sido ignorada).

“As Mulherzinhas” de Louise May Alcott

Quando era pequena costumava seguir na TV um anime inspirado no clássico “As mulherzinhas”. Quando descobri que existia o livro (devia ter uns 8 anos), pedi pelo Natal no entanto ofereceram-me uma versão adaptada para crianças que me deixou desiludida e sempre na expectativa de um dia vir a ler o original. Concretizou-se devido a uma promoção na Feria do Livro de 2010 onde finalmente acabei por comprar o original.

Em relação ao livro em si, arrependi-me de não o ter lido efectivamente na infância porque agora, grande parte da magia perdeu-se… As personagens são demasiado bem comportadas, mesmo quando se desviam dos bons costumes e, para além de um romance com um grande sentido de moral, não há muito mais a retirar da obra. Ainda assim, a personagem Jo não me desiludiu, continuou a ser a minha preferida, tanto no livro como na tv, pelo seu gosto pelos livros, imaginação e rebeldia…

Assim sendo, considero este um bom livro para oferecer a uma menina em idade escolar, desapontando um pouco quando crescemos, ao contrário de outras obras como “O Principezinho” ou a “”História Interminável”, estas sim intemporais.

“África Minha” de Karen Blixen

Um dos últimos livros que li foi “África Minha” de Karen Blixen. Esta obra reúne as memórias de Karen, durante o período em que geriu uma fazenda em África, na região das montanhas Ngong, longe da sua terra Natal na Dinamarca. Devo dizer que nunca vi o filme razão pela qual a minha opinião é puramente literária.

Em relação ao livro, fiquei desiludida, não propriamente porque o livro fosse mau, mas porque estava à espera de algo completamente diferente. Comecei a ler o livro depois de “Pássaros Feridos” e, à semelhança desta obra, pensava que ia encontrar uma história de amor épica, em que apenas se alterava o cenário para o continente Africano (sim, às vezes ou um bocadinho lamechas, mas só muito de vez em quando :p). Nada mais longe da realidade. “África Minha” não tem romance (ok, talvez um bocadinho…). Tem sim pequenos episódios da vida Africana, que podem parecer-nos a nós, europeus, excêntricos, mas que não estão mais errados do que a nossa própria realidade. Transporta-nos para uma África simples e complexa ao mesmo tempo. A vida, a morte, o destino, a dor, a magia, interligam-se tão profundamente como se se tratassem de uma única massa que envolve todos os habitantes da savana (e das montanhas), homens e animais, num elo que os une e separa.

Há episódios que nos marcam mais que outros. Na minha memória ficou o do rapaz deficiente que Karen adoptou e que empregou como cozinheiro, pela sua peculiar forma de viver com as suas limitações e das incorporar na sua própria visão da vida. Também gostei da gazela meio humana, que faz diluir a fronteira entre o humano e animal e emocionou-me descrição da sepultura do seu amante. Mas definitivamente, a minha parte preferida foi aprender a desenhar cegonhas de uma forma muito engraçada.

Resumindo, apesar do meu desapontamento, penso que é um livro que vale a pena ler. Apesar de nunca ter estado em África, fiquei com uma ideia do que poderá ser viver neste continente misterioso.

“Chicken with Plums” de Marjane Satrapi.

Terminei “Chicken with Plums” de Marjane Satrapi. Embora preferisse “Persepolis”, também gostei bastante desta obra.

O livro é quase um conto, ou short-story, dado o seu reduzido tamanho e de inicio deixou-me confusa: porque razão um homem decide suicidar-se depois de alguém partir o seu instrumento musical preferido?

A verdade é que o faz e aguarda, pacientemente, ao longo de 7 dias a visita do anjo da morte.

Durante esse tempo acompanhamos a sua breve retrospectiva de vida embora existam factos para ele que são muito diferentes na realidade.

O mais impressionante foi o final, onde compreendemos a verdadeira razão do inexplicável desejo de morte e, acreditem em mim, os vossos olhos vão se demorar um pouco mais no último desenho e vão sentir um desconcertante aperto no coração.

(não vale a pena espreitar antes de chegar ao fim, eu mesmo fi-lo e, sem ler a história toda, parecerá uma simples figura, de um final bastante previsível…)

“Pássaros feridos” por Collen McCullough

Terminei há dias “Pássaros feridos” de Collen McCullough.

A história desenrola-se na longínqua Austrália, onde acompanhamos a saga da família Cleary e da forma como o destino de três mulheres se repete ao longo de três gerações.

A dor, o orgulho e a resignação passam de mãe para filha, como as estações se sucedem sobre a terra, em ciclos alternados de vida e morte.

Para além dos magníficos quadros, criados por palavras, de uma terra onde a Natureza é dura e poderosa, o que mais me apaixonou neste livro foi exactamente o tema da fatalidade da vida e de como tantas vezes o destino se repete de uma forma irónica, como se fossemos todos meros actores numa grande peça da qual desconhecemos o guião já traçado.

Também agora, a entrar na idade adulta, sinto repetir-se em mim acontecimentos que marcaram a vida da minha mãe, tal como ela o sentiu, embora de outra forma, com a sua mãe, minha avó.

E por isso senti que este livro foi lido na fase ideal para compreender todo o seu significado (embora suspeite que esta seja uma daquelas obras que nos acompanham toda a vida e das quais retiramos diferentes leituras ao longo dos anos…)

Para além do que referi, há passagens deliciosas, que dão vontade de sublinhar e guardar na memória. Termino este post com um desses exemplos:

“(…) É apenas um homem. Vocês são todos iguais, grandes mariposas peludas que se despedaçam no encalço de uma chama tola, atrás de um vidro tão claro que os seus olhos não a vêem. E quando conseguem entrar, aos trancos e barrancos, no interior do vidro para chegar à chama, caem ao chão queimados e mortos. Entretanto, lá fora, na noite fresca, há comida, amor e pequenas mariposas. Mas vêem eles essas coisas? Querem essas coisas? Não! É atrás da chama que correm, até perder os sentidos e morrer queimados por ela. (…)”

“A Sétima Porta” de Richard Zimler

Um dos livros que li durante a minha ausência no blog foi “A Sétima Porta” de Richard Zimler. Este romance surge como uma espécie de sequela de “O ultimo cabalista de Lisboa”, do mesmo autor, embora a sua leitura prévia não seja necessária para compreender “A Sétima Porta” (eu ainda não li…).

Tal como tinha acontecido com “Meia-noite ou o princípio do mundo”, adorei a historia. Continuo a achar Richard Zimler o melhor contador de histórias da actualidade.

A acção desenrola-se inicialmente na Alemanha e no final em Istambul, e compreende o período entre a subida de Hitler ao poder na Alemanha e o fim da II Guerra Mundial.

A personagem principal, aos olhos de quem acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos, é Sophele.

No início, Sophele é apenas uma jovem adolescente que vive em Berlim, com a sua mão Russa, o seu pai comunista e o seu irmão mais novo, uma criança autista que Sophele protege e ama incondicionalmente.

Para além dos típicos conflitos entre a jovem e os pais, Sophele possui um espírito irreverente que nem o seu namorado Tony consegue contrariar. Na sua própria diferença, cedo estabelece amizade com um grupo de pessoas “diferentes” e para as quais não existirá lugar no Terceiro Reich. São eles Isac, um judeu que estuda obcecadamente a cabala e os escritos do seu antepassado, Benjamim (do livro “O ultimo cabalista de Lisboa”), uma gigante com a cara deformada, um casal de anões, e várias outras personagens, todos com características pouco toleradas pelo regime (cegos, surdos-mudos, homossexuais…).

Com o desenrolar dos acontecimentos políticos, o pai de Sophele acaba por renegar as suas convicções comunistas e aderir à extrema-direita. No entanto, Sophele identifica-se mais com os seus novos e verdadeiros amigos e, apesar de estar no lado certo da “certo” da barreira, desafia e sistema e assiste impotente ao desenrolar das historias fatídicas de cada um…

Este foi mais um livro que me fez chorar bastante e que serviu para me relembrar uma época da historia da Humanidade que nunca deverá ser esquecida para que não seja repetida.

As atrocidades cometidas foram inúmeras e, ao nos envolvermos com as personagens como Zimler nos leva a fazer, os sentimentos de revolta e dor são ainda mais fortes.

Apesar de existirem diversas obras sobre o tema, esta tem a vantagem de não focar apenas na questão dos judeus, mas todas as outras minorias, poucas vezes referidas na literatura mas que sofreram igualmente.

Aconselho vivamente!

“Persepolis” de Marjane Satrapi

Terminei há uns dias “Persepolis” de Marjane Satrapi. Este é um livro de banda desenhada absolutamente fantástico e que automaticamente passou para a minha lista de melhores livros de sempre.

O livro consiste na história de Marjane, uma jovem iraniana demasiado rebelde para a sua cultura e que tenta encontrar o seu lugar num mundo cheio de contradições.

A obra divide-se em duas partes: na primeira Marjane mostra-nos a sua infância, inicialmente uma vida simples e liberal, seguida da implementação do regime fundamentalista islâmico após a qual a vida de Marjane sofre enormes alterações, num ambiente de repressão e discriminação sexual, prisões politicas e ausência de liberdade de expressão.

Na segunda parte o Iraque ataca o Irão e os pais de Marjane enviam-na para a Europa com o objectivo de poupar a sua única filha adolescente à guerra, no entanto, os problemas que Marjane enfrenta na Europa, levam-na a regressar, tão ou mais magoada do que se tivesse ficado…

Gostei deste livro por diversas razões. Visualmente, os desenhos são muito simples, no entanto de uma inteligência emocional tremenda, conseguindo transmitir de uma forma fria e crua os sentimentos inerentes às diversas fases. Gostei particularmente da imagem de Deus e da forma como Marjane interage com ele nos desenhos e, talvez de uma maneira mórbida, dos desenhos dos mortos, pela sensação de vazio e perda transmitida na forma como é desenhado o olhar.

Em termos da história em si, é fácil criarmos empatia com Marjane que na realidade é uma anti-heroina, uma vez que uma boa parte do livro é sobre os seus falhanços. Relativamente ao impacto que o livro teve em mim, permitiu-me descobrir um pouco mais sobre o Irão (país que apenas conhecia das noticias sobre as suas experiencias nucleares) e serviu para me fazer tomar consciência do que possa ser viver sobre um regime fundamentalista. Tenho de admitir também que de certa forma quebrou alguns preconceitos que erradamente sentia em relação aos países do médio Oriente…

Sendo assim, aconselho muito este livro, esperando que a sua mensagem possa ser lida e reflectida pelo maior numero possível de pessoas, para que todos tenhamos consciência de realidades que muitas vezes preferimos ignorar.

Nota: o livro foi adaptado para um filme, que tive apenas oportunidade de ver o final mas que me deixou com vontade de ver mais…

“A Herança do vazio” de Kiran Desai

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Durante a minha ausência prolongada li apenas “A Herança do vazio”, de Kiran Desai. Tinha bastantes expectativas em relação a esta obra, principalmente por lhe ter sido atribuído o Booker Prize em 2006. Gostei também do facto de a história decorrer em grande parte na Índia e de abordar o tema da imigração.

Devo dizer que a minha opinião final ficou bastante aquém das minhas expectativas. Apesar de a história, ou melhor, dos vários fragmentos de histórias, serem bastante fortes e terem muito potencial, a maneira como esta se desenrole, e como é contada por Desai é bastante insípida, não tanto pelas descrições, porque essas sim estão bastante boas, mas pela construção das próprias personagens, que são estanques, e pouco “realistas”.

A história gira à volta de várias pequenas histórias, todas ligadas de alguma forma. As personagens principais são um antigo juiz Indiano e a sua neta, que entra repentinamente na sua vida, após um acidente que vitimou os seus pais e que a obrigou a abandonar o colégio interno. Com eles vive um criado cujo filho emigrou ilegalmente para os Estados Unidos. O juiz e a neta estão inseridos numa comunidade de ingleses que se encontram na Índia há muitos anos, vivendo num limbo entre as duas nacionalidades.

Este é um livro sobre emigrantes e imigrantes e dos vários problemas com que estes se deparam. Achei a parte do jovem ilegal demasiado decadente, assim como a do juiz que aspira ser inglês numa cultura exactamente aposta e isto ironicamente depois de nunca se ter sentido integrado na Inglaterra original. As histórias de que mais gostei foram as dos ingleses na Índia que tentam a tudo o custo manter as suas tradições, levando por vezes a situações caricatas. A personagem com quem mais simpatizei foi a neta do juiz e a única em que senti haver uma evolução interessante foi no explicador/amante da jovem, que apesar de gostar do conforto da casa do juiz, acaba por se envolver num grupo de revolucionários separatistas.

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